Acordei de madrugada e não havia ninguém ao meu lado. Não havia energia e, dessa forma, o telefone sem fio não funcionava. Busquei dentro da gaveta, no escuro, o meu celular e liguei pro de Miranda, que tocou logo atrás de mim – possivelmente no armário. Sumira na noite, sem aviso, sem celular e, como se não bastasse, levara-me também a energia. Um banho me esfriaria a cabeça, contudo não havia água. Procurei, então, inutilmente, algo para beber ou comer, mas Miranda me levara até os sapatos. A paranóia me tomou a mente. Procurei a chave do carro, em seguida, o carro, e, ainda, as chaves de casa, sem sucesso, de fato. Ela levara a minha liberdade e estava, agora, me tirando a calma.
Dividi-me em dois pensamentos: poderia estar passando por uma seqüência de coincidências improváveis e quase impossíveis; ou, talvez, eu tivesse uma bandida como esposa por sete anos. Como pude? Como ela pôde? Não! Não! Ela haveria de voltar pra casa ao amanhecer. Procurei no canto da sala e não encontrei o meu violão – a maior frustração até então. Considerei a possibilidade da casa ter sido invadida. Conferi todas as fechaduras, mas nem sinal de arrombamento. Talvez um recado no escuro do quarto, pois se Miranda, por qualquer motivo, decidisse levar tudo de mim, não me deixaria o seu celular. Voltei ao quarto e abri o armário cujo interior eu mal podia ver no escuro, e lá estava o celular, no bolso de Miranda, assassinada, roubada de mim por aquele que roubara até os meus sapatos.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
A Pedra
Uma pedra. Haveria algum motivo para estar ali? Talvez, assim como ele, estivesse caída sem objetivo, com frio e com fome... Sentou-se bem perto para talvez conversar, mas a imensa vontade que lhe vinha era de arremessá-la ali, nos vidros espelhados daquela loja. No comércio todas as vitrines eram transparentes, exceto aquelas, daquele prédio onde os mais bem vestidos transeuntes entravam, e o pobre homem – ou homem pobre – nunca podia saber o que se fazia ali. Empunhou a pedra e levantou-se, olhando-a como se pedisse perdão; deu dois passos à frente, saindo de cima do papelão, e arremessou-a com toda força que lhe restava de uma longínqua refeição. Vidro estilhaçado e uma bela visão do interior, apesar do escuro por haver um único poste a tantos metros ali... Consumado. Poderia voltar a dormir.
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
O mundo de dentro da casa da moça e a casa da moça de dentro do mundo.
Entrou leve e, pisando os calcanhares, largou os sapatos junto à porta. Não tinha nada contra o mundo lá fora, mas gostava muito mais de estar ali, com seus discos que os humanos não compreendiam e livros que os mesmos não tinham tempo de ler. Enquanto bagunçava o cabelo – que pro trabalho prendia num coque, lambia com gel e enfeitava com uma presilha de borboleta – largou a bolsa em meio às inutilidades da escrivaninha e se livrou dos colares e pulseiras que a prendiam naquele personagem decente e normal demais. Na cozinha pôs no fogo três frigideiras: queijo, ovo e calabresa. Voltou à sala e ligou o ventilador, para que o clima ameno não a pudesse impedir de afundar-se em cobertores e travesseiros. No vídeo cassete um filme antigo e mal dublado sobre caubóis norte americanos, que, por tê-la feito companhia em tantas outras noites, anunciava com a primeira aparição da donzela a hora de desligar o fogão. Nas primeiras vezes se encantava com a cena e acabava por deixar queimar a comida, mas agora era veterana e ia até a cozinha falando junto, em voz alta, a fala da personagem.
As pessoas de fora costumavam criticá-la freqüentemente. Na vizinhança reclamavam do barulho na sexta de noite e do cheiro de incenso; no trabalho, da sociabilidade e temperamento. Mas nada disso importava se ela estava em casa, pois sabia sozinha da mágica que guardava ali. Na verdade mesmo a casa não tinha nada demais. Por pouco não caía aos pedaços... Faltava tinta em muitos lugares e sobrava poeira em tantos outros, mas de verdadeiro já bastava o mundo depois do portão, e no fundo – veja bem, não mais “na verdade” – a casa era mesmo mágica. A moça entrava e nada mais importava. De lá de dentro olhava o mundo com deboche e muito se divertia, rindo das pessoas que de fora a olhavam com estranheza.
Voltou ao sofá e sentou com as pernas cruzadas. Um copo de suco e um pires sobre a mesinha e o sanduíche na mão, sem guardanapo, como já era tradição. Daí pra frente o filme não seria interrompido nem mesmo para ir ao banheiro ou buscar açúcar – fazia parte do ritual para uma noite suficientemente reparadora para a rotina da manhã seguinte, já que a casa a guardaria do mundo, não da vida...
As pessoas de fora costumavam criticá-la freqüentemente. Na vizinhança reclamavam do barulho na sexta de noite e do cheiro de incenso; no trabalho, da sociabilidade e temperamento. Mas nada disso importava se ela estava em casa, pois sabia sozinha da mágica que guardava ali. Na verdade mesmo a casa não tinha nada demais. Por pouco não caía aos pedaços... Faltava tinta em muitos lugares e sobrava poeira em tantos outros, mas de verdadeiro já bastava o mundo depois do portão, e no fundo – veja bem, não mais “na verdade” – a casa era mesmo mágica. A moça entrava e nada mais importava. De lá de dentro olhava o mundo com deboche e muito se divertia, rindo das pessoas que de fora a olhavam com estranheza.
Voltou ao sofá e sentou com as pernas cruzadas. Um copo de suco e um pires sobre a mesinha e o sanduíche na mão, sem guardanapo, como já era tradição. Daí pra frente o filme não seria interrompido nem mesmo para ir ao banheiro ou buscar açúcar – fazia parte do ritual para uma noite suficientemente reparadora para a rotina da manhã seguinte, já que a casa a guardaria do mundo, não da vida...
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
Os Atores.
O mundo é dos atores e digo porque conheço uns bons, que me têm na mão quando resolvem mentir sobre verdades e mentiras que diziam - ou mentiam - ser mentiras ou verdades, ou dissimular respostas às minhas perguntas sobre omissões. Não são necessariamente artistas, mas os admiro pela dificuldade que há em se dar sempre bem, mesmo estando mal.
terça-feira, 4 de setembro de 2007
Convite.
A explícita alegria nas frases lembrava as conversas alheias ouvidas meio sem querer no centro da cidade, e os erros de português as palavras da mãe que se fôra. Chorava e engolia virgulas sem pensar, na mistura da alegria da correspondência com a nostalgia das recordações. No envelope, além da carta, um convite e um retrato antigo de casa – as letras douradas chamavam a atenção, mas não mais que a imagem da família embaixo do cajueiro. Catou no armário um porta-retrato velho, contudo retirou de um dos novos, na escrivaninha, a foto do ladrador, pois a única foto que tinha da família reunida merecia moldura bonita. Guardou o envelope e o manuscrito sob o pano da mesa para ler o convite impresso, formal, com letras enfeitadas, lacrado por um adorno em flor e, já na segunda linha, soube o final: a irmã se casaria em breve.
Correu ao quarto para buscar uma correspondência antiga, na esperança de encontrar o nome do sujeito, mas não encontrou. Já não era aquele namorado esse tal noivo, mas tudo bem, deviam se amar... Pena seria não poder comparecer. De madrugada iria telefonar e dizer coisas bonitas, falar da saudade de tudo por lá e mandar um abraço para o pai. No final, se arranjasse coragem, falaria também pela mãe e diria que ama, mesmo que qualquer “iria se pudesse” soasse quase como um “tentaria se quisesse”. Verdade é que tinha que trabalhar.
Correu ao quarto para buscar uma correspondência antiga, na esperança de encontrar o nome do sujeito, mas não encontrou. Já não era aquele namorado esse tal noivo, mas tudo bem, deviam se amar... Pena seria não poder comparecer. De madrugada iria telefonar e dizer coisas bonitas, falar da saudade de tudo por lá e mandar um abraço para o pai. No final, se arranjasse coragem, falaria também pela mãe e diria que ama, mesmo que qualquer “iria se pudesse” soasse quase como um “tentaria se quisesse”. Verdade é que tinha que trabalhar.
sexta-feira, 10 de agosto de 2007
4 ou 5 do mês.
Ambiente todo em madeira, com mesas pequenas em diagonal e, na entrada, um balcão com bancos altos. Em uma das mesas, no centro do lugar, conversávamos apenas para amenizar o clima, quebrando o gelo, e algumas vezes ela encostava um pé nos meus que, só dessa vez – infelizmente – estavam de tênis. Ele, ao meu lado direito, nem imaginava. Talvez passasse pela mesma situação, afinal a ela restava o outro pé...
Falando assim é fácil criar uma imagem ruim. Mas não. Na verdade estou falando de uma menina inocente, insegura e indecisa. De tempos em tempos ela afastava a cadeira e olhava para baixo da mesa, e a vontade que me dava de fazer o mesmo era imensa. Não sei qual era o objetivo... Talvez procurar os pés certos. Sabe-se lá se realmente existe alguém inocente.
Música instrumental ao vivo e pouca conversa: clima propício para o consumo, mas tudo que pedimos foi um refrigerante – que na verdade pedi sozinho, enquanto os esperava. Ficamos apenas sentados, nos olhando, sem comida ou copos que pudessem nos esconder e, depois de muita cara de tédio, ela decidiu ir embora, antes de a festa acabar. Quem era eu pra sugerir que ficassem? Se resolveram sozinhos, conversando ao pé do ouvido, e me avisaram depois. Comentei alguma coisa sobre me deixarem lá sozinho e me aconselharam a sair antes, pois teriam um ao outro. Eu realmente não tinha ninguém.
Falando assim é fácil criar uma imagem ruim. Mas não. Na verdade estou falando de uma menina inocente, insegura e indecisa. De tempos em tempos ela afastava a cadeira e olhava para baixo da mesa, e a vontade que me dava de fazer o mesmo era imensa. Não sei qual era o objetivo... Talvez procurar os pés certos. Sabe-se lá se realmente existe alguém inocente.
Música instrumental ao vivo e pouca conversa: clima propício para o consumo, mas tudo que pedimos foi um refrigerante – que na verdade pedi sozinho, enquanto os esperava. Ficamos apenas sentados, nos olhando, sem comida ou copos que pudessem nos esconder e, depois de muita cara de tédio, ela decidiu ir embora, antes de a festa acabar. Quem era eu pra sugerir que ficassem? Se resolveram sozinhos, conversando ao pé do ouvido, e me avisaram depois. Comentei alguma coisa sobre me deixarem lá sozinho e me aconselharam a sair antes, pois teriam um ao outro. Eu realmente não tinha ninguém.
sábado, 28 de julho de 2007
Dias Frios.
Nos dias frios acordo cedo e me levanto tarde, e tenho sempre muito em que pensar. Raciocínios incompletos de antes de dormir e idéias novas que o conforto proporciona. Já nos dias quentes saio da cama antes de acordar...
Nos dias frios penso e escrevo sobre a vida e, que saia ou que fique em casa, a tarde me faz bem. Nos dias quentes parece depender mais de mim, e preciso andar, sentar na sombra, achar um lugar mais "dia frio". Mas as noites frias me fazem lembrar dos dias perdidos, quentes ou não, que tenham sido frios no ambiente, para no contraste serem quentes no âmago de nós.
Nas noites quentes, raciocínios incompletos antes de dormir.
Nos dias frios penso e escrevo sobre a vida e, que saia ou que fique em casa, a tarde me faz bem. Nos dias quentes parece depender mais de mim, e preciso andar, sentar na sombra, achar um lugar mais "dia frio". Mas as noites frias me fazem lembrar dos dias perdidos, quentes ou não, que tenham sido frios no ambiente, para no contraste serem quentes no âmago de nós.
Nas noites quentes, raciocínios incompletos antes de dormir.
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